O cordyceps de The Last of Us existe? O que a ciência realmente diz
A série abre com um programa de auditório de 1968 e um epidemiologista dizendo que o que deveria assustar a humanidade não é vírus nem bactéria, é fungo. É uma das melhores aberturas de série já feitas, e a pergunta que ela deixa é honesta: o cordyceps de The Last of Us existe mesmo, e pode fazer isso com a gente?
A resposta curta tem duas partes. O fungo existe e faz coisa pior do que a série mostra. Mas não com humanos, e a razão disso é mais interessante que um simples “é ficção”.
O fungo é real
Chama-se Ophiocordyceps unilateralis e infecta formigas em florestas tropicais. O que ele faz é bem documentado: cresce dentro da formiga, se instala em volta da musculatura e do sistema nervoso, e passa a controlar o movimento dela. A formiga infectada abandona a colônia, sobe numa folha a uma altura e umidade específicas, crava as mandíbulas na nervura central e morre ali. Só então o corpo de frutificação do fungo brota da cabeça dela e espalha esporos sobre o formigueiro embaixo.
Não é exagero de roteirista. É comportamento medido em campo, e a série contratou justamente David Hughes, entomologista que estuda esse fungo, como consultor.
O detalhe que quase ninguém nota
Pesquisas recentes mostraram que o fungo não invade o cérebro da formiga. Ele toma a musculatura e o sistema nervoso periférico, deixando o cérebro relativamente intacto. Traduzindo: a formiga provavelmente não vira uma marionete inconsciente. Ela é levada, ainda presente.
Isso é bem mais perturbador que a versão que a maioria das pessoas imagina, e é a coisa mais próxima de terror puro que a biologia oferece de graça.
Por que ele não pega em humanos
Três barreiras, e a terceira é a mais importante.
- Especialização extrema. Cada espécie desse grupo de fungos evoluiu junto com uma espécie específica de inseto, ao longo de algo em torno de 45 milhões de anos. Não é um parasita generalista procurando hospedeiro. É uma chave feita para uma fechadura.
- Diferença estrutural. O mecanismo depende da anatomia do inseto, de exoesqueleto a musculatura. Nada disso se traduz para um mamífero.
- Temperatura. A maior parte dos fungos cresce bem entre 25 e 30 graus. O corpo humano opera em torno de 36 a 37. Essa diferença de poucos graus é uma barreira real, e é uma das razões pelas quais mamíferos de sangue quente sofrem muito menos com fungos do que insetos, plantas e anfíbios.
A parte que a série acerta e assusta de verdade
O argumento do epidemiologista na abertura não é invenção: existe uma hipótese levada a sério na literatura de que o aquecimento global reduz a distância entre a temperatura do ambiente e a do nosso corpo, e que fungos submetidos a ambientes mais quentes podem selecionar linhagens mais tolerantes ao calor. Se essa barreira encolher, ela protege menos.
E existe um caso concreto. A Candida auris foi identificada pela primeira vez em 2009, apareceu em hospitais de continentes diferentes quase ao mesmo tempo, tolera temperaturas mais altas que parentes próximos, sobrevive em superfícies e resiste a antifúngicos. Em 2022 a Organização Mundial da Saúde publicou a primeira lista de fungos prioritários para saúde pública, e ela está no grupo crítico, junto com Cryptococcus neoformans, Aspergillus fumigatus e Candida albicans.
Nada disso transforma ninguém em zumbi. O risco real de fungo não é apocalipse, é infecção hospitalar difícil de tratar em quem já está doente, com poucas classes de medicamento disponíveis e resistência crescente. É menos cinematográfico e mata gente de verdade.
O veredito
O cordyceps de The Last of Us é ficção científica bem informada. A premissa de um fungo que controla o hospedeiro é real e brutal. O salto para humanos, com o mecanismo mantido, exigiria milhões de anos de mudança genética e não é o cenário que preocupa quem estuda o assunto.
A série pegou uma verdade biológica desconfortável, esticou até o absurdo e teve o cuidado de deixar o fio original visível. É por isso que ela funciona melhor que a média das histórias de apocalipse.
Perguntas frequentes
O cordyceps existe de verdade?
Existe. O gênero reúne centenas de espécies, e a mais famosa, Ophiocordyceps unilateralis, controla o comportamento de formigas até matá-las em um ponto favorável à dispersão dos esporos.
Pode infectar humanos?
Não há registro de infecção humana por esse fungo, e as barreiras de especialização, anatomia e temperatura corporal tornam o cenário da série extremamente improvável.
E o cordyceps vendido como suplemento?
É outra espécie do mesmo gênero, usada em preparações tradicionais e vendida como suplemento. Nada a ver com controle de comportamento, e as alegações de benefício variam muito em qualidade de evidência.
Então fungo não é perigoso?
É, mas por outro motivo. Infecções fúngicas invasivas são um problema sério de saúde pública, principalmente em pessoas hospitalizadas ou imunossuprimidas, e a OMS mantém desde 2022 uma lista de fungos prioritários por causa da resistência a medicamentos.
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