Capa do artigo do Cenanauta sobre filmes de terror baseados em fatos reais

Filmes de terror baseados em fatos reais: o que aconteceu de verdade

“Baseado em fatos reais” é a frase mais barata do marketing de terror. Ela aparece no cartaz, aparece na abertura, e quase nunca vem acompanhada de qualquer explicação sobre o que exatamente é real.

Fomos atrás de cada caso. Em alguns, o fato real é mais perturbador que o filme. Em outros, a história foi inventada por adultos tomando vinho.

O Exorcista (1973)

O que é real: bastante coisa. William Peter Blatty escreveu o romance a partir de um caso de 1949 envolvendo um menino de Maryland, conhecido pelos pseudônimos Roland Doe e Robbie Mannheim, submetido a um ritual de exorcismo autorizado pela Igreja Católica em St. Louis.

O que o filme inventou: praticamente toda a espetacularização. Blatty trocou o menino por uma menina, e a possessão silenciosa e clínica dos registros virou cabeça girando e vômito verde. O diário do padre que acompanhou o caso descreve algo bem mais discreto, e bem mais triste.

Vale registrar que nunca houve confirmação independente de fenômeno sobrenatural. O que existe é um menino com sofrimento psíquico severo em 1949, numa época sem diagnóstico e sem tratamento.

Terror em Amityville (1979)

O que é real: o crime. Em novembro de 1974, Ronald DeFeo Jr. matou os pais e os quatro irmãos dentro da casa em Long Island. Isso está em processo judicial, não em livro de assombração.

O que provavelmente foi inventado: todo o resto. A família Lutz comprou a casa no ano seguinte e saiu depois de 28 dias, alegando assombração. Em 1979, o advogado William Weber, que havia defendido DeFeo, declarou que ele, o escritor Jay Anson e os Lutz criaram a história de horror ao longo de muitas garrafas de vinho.

O pesquisador Benjamin Radford resume o caso como refutado por testemunhas, investigações e provas forenses. Amityville é menos um caso sobrenatural e mais um estudo sobre como uma tragédia real vira produto.

Invocação do Mal (2013)

O que é real: as pessoas. Ed e Lorraine Warren existiram, atenderam a família Perron em Harrisville, Rhode Island, nos anos 1970, e construíram uma carreira inteira em cima de casos como esse. Lorraine chegou a ser consultora do filme.

O problema: a credibilidade dos Warren é contestada há décadas, e não só por céticos profissionais. O escritor Ray Garton, contratado para escrever o livro sobre outro caso do casal, o caso Snedeker, declarou depois que a própria família envolvida não conseguia manter a história coerente, e que ele foi orientado a preencher as lacunas.

Isso não torna o filme pior. Torna a etiqueta de “fatos reais” uma escolha de marketing, não uma afirmação verificável.

Annabelle (2014)

O que é real: a boneca existe e está no museu que os Warren mantinham em Connecticut.

O que o filme mudou, e é engraçado: a Annabelle verdadeira é uma boneca de pano Raggedy Ann, aquelas de cabelo de lã vermelho, com cara de brinquedo infantil comum. A boneca de porcelana com rosto rachado que aterroriza o cinema foi criação do departamento de arte, porque a original não assusta ninguém.

Psicose, O Massacre da Serra Elétrica e O Silêncio dos Inocentes

Três filmes, três vilões, um homem só.

Ed Gein foi preso em 1957 no Wisconsin. A polícia encontrou na casa dele objetos feitos com restos humanos retirados de túmulos, além dos corpos de duas mulheres assassinadas. Ele vivia com a mãe até a morte dela e manteve o quarto intacto.

Desse caso saíram Norman Bates, o filho preso à mãe morta. Leatherface, a máscara de pele. E Buffalo Bill, que costura roupa com pele humana. Nenhum dos três é Gein, e os três são Gein.

Detalhe que quase ninguém sabe: O Massacre da Serra Elétrica abre afirmando ser baseado em acontecimentos reais. Não é. Tobe Hooper colocou a frase porque ela vendia ingresso, e a estratégia funcionou tão bem que virou padrão do gênero.

Zodíaco (2007)

O oposto de todos os anteriores. O caso é real, os assassinatos são reais, as cartas cifradas enviadas à imprensa da Califórnia são reais, e o crime segue sem solução.

David Fincher tratou o material com rigor quase documental, e é justamente por isso que o filme é insuportável no melhor sentido. Ele não entrega o assassino porque ninguém entregou. A frustração é o ponto.

Se você só tiver tempo para um da lista, é esse.

O placar, em uma frase cada

  • Zodíaco: quase tudo verdade, inclusive a falta de final.
  • Psicose e derivados: o criminoso é real, os personagens são invenção construída em cima dele.
  • O Exorcista: o caso existiu, o espetáculo não.
  • Invocação do Mal: as pessoas existiram, os eventos são contestados.
  • Annabelle: a boneca existe e é de pano.
  • Amityville: o crime é real, a assombração provavelmente nasceu numa mesa de bar.

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Fontes consultadas para a checagem dos casos: registros públicos do caso DeFeo, a documentação sobre Ed e Lorraine Warren e as declarações de William Weber e Ray Garton reproduzidas na imprensa desde 1979.

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