Lanternas funciona porque não é série de super-herói
A DC tinha em mãos a franquia mais espacial do catálogo. Tropa intergaláctica, planeta central, anéis que materializam qualquer coisa que você imaginar, vilões do tamanho de sistemas solares.
E fez uma série sobre dois caras investigando um assassinato em Nebraska.
É exatamente por isso que funciona.
O que Lanternas escolheu não ser
Não é história de origem. Não tem sequência de treinamento, não tem descoberta de poderes, não tem o momento em que o herói aprende a voar enquanto uma trilha orquestrada sobe ao fundo.
Não é sobre salvar a cidade. Não é sobre uma ameaça que chega em nave e explode um monumento no terceiro ato.
É sobre dois policiais que não confiam um no outro dividindo um carro, um corpo, e uma cidade pequena que não quer conversa. O anel está lá, mas é ferramenta, não é o assunto.
Quando a série liga o cósmico, ela liga como quem abre uma porta que estava fechada o tempo todo. O sobrenatural pesa mais justamente porque o resto é chão.
Quem escreveu isso não tem histórico de aventura leve
Olhe os três nomes na criação e o resultado deixa de ser surpresa.
- Chris Mundy, showrunner, fez Ozark. Sabe conduzir crime em cidade pequena por temporadas inteiras sem perder tensão.
- Damon Lindelof fez Lost e Watchmen. É o sujeito que pegou a HQ mais intocável do gênero e fez uma continuação sobre racismo estrutural na Tulsa de 1921.
- Tom King passou os últimos anos escrevendo super-herói como estudo de trauma nos quadrinhos, e é ex-analista da CIA, o que aparece na forma como ele constrói investigação.
Nenhum dos três ia entregar uma série de pancadaria colorida. A pergunta nunca foi se o tom seria sério. Era se a DC teria estômago para deixar.
A fórmula não é nova, e é justamente esse o ponto
Pegar um gênero popular e tratá-lo com gramática de drama adulto é o que a HBO faz desde sempre. Foi assim com máfia em Os Sopranos, com fantasia em Game of Thrones, com videogame em The Last of Us.
O que muda aqui é o alvo. Super-herói é o gênero que mais resistiu a esse tratamento, porque é o mais rentável do jeito que já está. Ninguém precisa reinventar o que enche sala de cinema.
Lanternas é a primeira vez em muito tempo que um estúdio grande aceita fazer um super-herói em que a cena de ação não é o motivo de existir do episódio.
O que essa escolha custa
Seria desonesto tratar isso como vitória sem preço.
Quem chegou querendo a Tropa dos Lanternas Verdes em ação, Oa, batalha espacial e construções luminosas gigantes vai passar boa parte da temporada esperando. A série entrega isso em conta-gotas, e de propósito.
E o ritmo é de série de investigação, não de blockbuster. Se você não gosta de episódio que avança por conversa, vai achar arrastado.
Não é defeito. É público-alvo. Mas vale saber antes de começar.
O risco que ainda está de pé
Faltam quatro episódios, e é aí que a aposta se resolve.
Uma série construída sobre investigação paciente e conflito humano tem um jeito clássico de se trair no final: transformar tudo numa batalha de efeito visual, como se o drama tivesse sido apenas a fila de espera para o espetáculo.
Se Lanternas terminar com o cósmico resolvendo o que o humano construiu, ela vira exatamente o que estava evitando. Se conseguir manter a lógica de investigação até o último episódio, vira referência.
Descobrimos em 4 de outubro.
Onde assistir e quando sai cada episódio
HBO Max, domingos às 22h. O calendário completo até o final da temporada, o elenco e a ligação com o filme do Superman estão no guia da série.